Os Tempos e Os Ventos
- Histórias que Contam
- 4 de mai.
- 2 min de leitura
Outras Histórias

Dizem que os Ventos – em suas quatro dimensões cardinais – são filhos de Urano e Gaia. Depois de Cronos, o Deus do Tempo, castrar o pai, foram paridos por Gaia que, ao ser pressionada pelos Céus, sufocada, gerou tudo o que existe. Comandados por Éolo, o vento frio vem do Norte; o vento suave e agradável nasce a Oeste; do Leste, chegam os ventos tempestuosos e, ao Sul, o vento quente que forma as nuvens.
Os Ventos e os Tempos criam as histórias. Não há história sem tempo e sem lugar, tampouco sem vento. Não há mudança sem que o vento arraste para longe o que já aconteceu, abrindo espaço para o novo. As gerações precisam de espaço e de tempo para existir. A tristeza, o calor, o desejo e todos os outros sentimentos precisam que a Mãe faça nascer o que tem que nascer. Será que com o Amor acontece a mesma coisa? Para nos apaixonarmos, precisamos deixar parir? Para amarmos, precisamos nos atirar aos ventos?
Ventava em Portugal. Talvez, por isso, Silvia e Rosário tenham sido colocadas lado a lado, apaixonadas. Da parte de Silvia, já era sabido, desde o primeiro aperto de mão. Da de Rosário, talvez alguns minutos depois. Os Ventos já haviam levado as duas para os mais diferentes lugares: Sílvia estivera em Berlim, Angola e Cabo Verde. Rosário estudara nos Estados Unidos. Ambas trabalhavam com terapias corporais. Sabemos: os corpos só existem se houver Tempo. E Vento. E Lugar.
Muita coisa aconteceu até que se estabelecessem em Alagoas. Silvia rompeu um relacionamento abusivo. De passagem para o Brasil, durante um assalto, recebeu um tiro no peito. Sobreviveu: a gente só morre quando não há mais qualquer pendência a ser resolvida, e havia o amor que sentia por Rosário. Rosário foi e retornou de vários lugares. Veio a pandemia e elas abriram uma plataforma de atendimento terapêutico online. Alugaram uma pousada na Praia do Riacho Doce, em Maceió, e assumiram as responsabilidades com a gestão e a recepção de hóspedes.
Os Ventos continuam fazendo com que elas mudem de lugar. Agora, Sílvia quer retomar seus projetos terapêuticos em São Paulo. Rosário ficará em Maceió, cuidando da pousada. As duas, com seus cinquenta e poucos anos, querem paz e tranquilidade. Os Ventos, então, trarão paz e tranquilidade.
Observação: Conheci Silvia e Rosário no Recanto Há Mar, em Maceió, em outubro de 2023. Fiquei apaixonada pela pousada e pelas duas. Retornei em março de 2025 e, entre meus planos, está o de ficar lá durante vinte dias, em novembro. Não há beleza natural que sobreviva se não houver amor, se as faíscas da generosidade e do acolhimento não forem capazes de iluminar os que lá estão. Quis contar a história das duas. Precisaria escrever um livro para tanto. Resolvi falar então das histórias inspiradas pelo vento forte e quente que senti na pousada.



Comentários