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O bonde de Santa Teresa

  • Foto do escritor: Histórias que Contam
    Histórias que Contam
  • 4 de mai.
  • 3 min de leitura

Memórias de um Passado Presente


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Meus pais gostavam de fazer excursões de ônibus para conhecer o Brasil. Segundo eles, era barato e evitava dores de cabeça com estradas e hotéis. Também havia outra vantagem: em geral, eles faziam novas amizades do “mesmo nível social” e com interesses semelhantes.


Exaustos de tanto discutir um com o outro, a viagem com outras pessoas permitia para meus pais um descanso da constante guerra familiar e, ainda, proporcionava uma oportunidade para que eles se tornassem as pessoas que gostariam de ser: meu pai logo ganhava o título do viajante mais engraçado; minha mãe conquistava os outros com a sua risada fácil, com a sua disposição para conhecer novos lugares e o seu compromisso com o bem-estar do grupo. Meu irmão e eu olhávamos tudo aquilo com espanto: sentíamos que nossos pais haviam sido abduzidos por extraterrestres e substituídos por aquelas pessoas estranhas, que se comportavam de forma esquisita e que não sabíamos quem eram.


Não lembro em que viagem meus pais conheceram um casal do Rio de Janeiro, já um pouco avançado na idade. Ao término da excursão, eles e meus pais haviam se prometido encontros e a preservação da amizade. Meus pais adoravam o Rio de Janeiro e, agora, o casal amigo era mais um motivo para viajar para a Cidade Maravilhosa. Eles moravam no bairro de Santa Tereza, numa casa agradável em meio a outras tantas casas agradáveis, as ruas cortadas por trilhos pelos quais passava, de tempo em tempos, um bondinho.


Meu irmão e eu não tínhamos o que fazer lá. Eles, meus pais e o casal, conversavam sobre coisas que não entendíamos. Já havíamos, também, comido todos os chocolates oferecidos. Estávamos entediados. Restava, portanto, a rua para brincar. Nunca havíamos visto um bondinho tão de perto e estávamos encantados com o barulho do trem se aproximando e os trilhos vibrando. Não demorou para que encontrássemos a brincadeira perfeita: ao ouvir o bonde se aproximando, eu gritava para meu irmão e ele pulava por sobre os trilhos, de um lado para o outro; quanto mais alto o barulho, maior a emoção. Trocávamos de lugar: às vezes, eu gritava e ele pulava; em outros, ele avisava do trem chegando e eu saltava por sobre os trilhos. Com os adultos entretidos com o café e a conversa animada, estávamos à vontade para brincar.


Não sei explicar o que aconteceu. Hoje, pensando sobre o assunto, acho que nos descuidamos. É possível, também, que tenhamos ficado exageradamente confiantes, cada vez o pulo acontecendo com o trem mais próximo. Só sei que, em dado momento, o trem estava a poucos metros de nós quando meu irmão resolveu pular. Um segundo. Um interminável e infinito segundo separou o trem do corpo do meu irmão. Depois, ele contaria ter quase sentido a carcaça do bonde aproximando-se da sua pele.


Pálidos e trêmulos, permanecemos sentados nos paralelepípedos da rua, aguardando que algum milagre acontecesse e os últimos minutos pudessem ser apagados das nossas mentes. Não foi necessário combinar: nem àquela ocasião, tampouco em qualquer outra, contamos aos nossos pais o que havia acontecido. Mantivemos segredo sobre a terrível experiência, assustados com a nossa própria irresponsabilidade e apavorados com a finitude da vida.


O que nos faz guardar na memória certos fatos, enquanto outros são tão facilmente descartados? Permanecem conosco os acontecimentos extraordinários, os que funcionam como pontos de inflexão, ou apenas aqueles que a força do tempo não consegue fazer submergir e desaparecer? Não tenho respostas. O fato é que, outro dia, quase cinquenta anos depois daquela nossa visita ao bairro de Santa Tereza, à mesa, enquanto almoçávamos com nossos filhos e amigos, meu irmão, estremecendo, fez soar um grito abafado.


- “O trem...” – ele disse, olhando para mim.


- “Está tudo bem, Dito. Já passou” – respondi, enquanto os demais à mesa nos olhavam, aturdidos.


Não, não tinha passado. Ele e eu sabíamos: aquele trem passaria por nós, e continuaria passando por nós pelo resto de nossas vidas, quase sempre tocando nossos corpos, indiferente aos nossos medos e sonhos.

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