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A arma

  • Foto do escritor: Histórias que Contam
    Histórias que Contam
  • 3 de mai.
  • 2 min de leitura
Arquivo pessoal
Arquivo pessoal

Memórias de um passado presente


Meu irmão, como qualquer outro garoto, era inquieto e arteiro. Era comum que meus pais fossem chamados de vez em quando à Diretoria da escola para ouvir lamentos e reclamações. A partir de certo momento, no entanto, minha mãe passou a declinar das convocatórias: essa era uma tarefa única e exclusiva do meu pai, na sua opinião.


- “Vá você. Não é você o responsável pela educação do teu único filho homem, do herdeiro do teu nome?”


Minha família era pequena: a maioria havia sido assassinada nos campos de concentração nazista e os sobreviventes estavam espalhados pelo mundo. Meu tio paterno Jacob só tinha uma filha; minha tia paterna Elza, dois filhos homens que, assim, carregavam o sobrenome do pai. Caso eu tivesse filhos, o mesmo aconteceria: eles teriam o nome do pai. Portanto, meu irmão era o único que poderia ter filhos que receberiam o nome da família, tarefa essa que ele iria, um dia, atribuir ao filho homem que talvez tivesse.


Apesar do longo histórico de problemas, meus pais se assustaram quando chamados à escola: meu irmão havia tentado matar um coleguinha. Meu pai, resignado, dirigiu-se à Diretoria e ouviu a história: meu irmão, sabe-se lá como, havia chegado à escola com uma arma de pressão. Depois de encher o cano da arma com giz, mirara no olho de um colega e atirara. O menino já havia sido atendido e estava bem. O prof. O., o diretor, então perguntou:


- “Quem foi o idiota que deu uma arma para um garoto de onze anos?”.


Meu pai emudeceu. Havia sido ele, claro. Afinal, era importante que o seu único filho homem soubesse se defender e tivesse familiaridade com armas. Já em casa, ajudou o meu irmão a limpar a arma, cheia de giz. Em silêncio, os dois se olharam. Não falaram nada, mas sabiam o que devia ser feito: numa próxima vez, meu irmão deveria atingir o olho do prof. O. ao invés de acertar o amigo. Dias depois, meu pai recebeu uma ligação da escola.


- “As cortinas da escola estão muito gastas, velhas. O que o senhor acha de fazer uma doação e trocar todas as cortinas?”.


Meu pai providenciou a troca, aquela e outras vezes mais. Substituiu cortinas, consertou móveis, retirou entulho e arrumou os brinquedos do playground: a cada reclamação, lá ia meu pai agradecer a boa vontade de todos com o seu filho. Fez isso por alguns anos; um dia, de repente, sentiu-se cansado de tudo aquilo e trocou meu irmão de escola. 

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